sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Atribuindo sentido

5.
Eu era uma criança muito chorona. Os adultos achavam isso. As outras crianças também. Eu me sentia sempre muito perto do meu limite, como alguém à beira de um precipício, tão à beira que a menor deslocação de ar pode causar a queda. Mesmo eu, em criança, sabia que estava chorando por besteiras, que em geral não lembrava poucas horas mais tarde.
Naquele dia eu não chorei. Nunca chorei por mim e pelo que houve comigo naquele dia. Porque aquele evento não cabia nas definições de dor, ou machucado, ou sofrimento, que eu conhecera até então. Eu já me machucara, já perdera parentes, já tivera doenças, sabia que podia chorar por essas coisas porque elas me faziam mal. Mas mamãe havia me levado ao médico para me sarar, porque eu tinha um dodói - quando sai sangue é machucado, machucado precisa cuidar para sarar. Minha mãe me colocou naquela sala, onde me colocaram naquela cama fria e gelada, e eu tinha sentido muita dor - mas era para o meu bem. Era importante ficar quieta, isto é, eu não poderia me queixar daquela dor ou tentar evitar aquele sofrimento. Nunca apanhei dos meus pais. Mas sempre temos o coleguinha na escola que apanha. Então, eu sabia que crianças apanhavam e sofriam quando faziam alguma cosia errada. Talvez eu tivesse feito.
Acontece que eu ganhei um cachorrinho. Um cachorrinho vivo. Foi melhor do que todos os presentes de Natal e aniversário e dia das crianças que eu ganhara até ali. Uma coisa que ninguém ainda entendeu sobre as crianças é: elas são inteligentes. Muito inteligentes. Quando o mundo lhes é apresentado cheio de lacunas e desencontros, elas preenchem os vazios de sentido com as evidências de mundo que recolhem à sua volta. Só que esse mundo é cheio de coisas que não podem ser vistas, sabidas, tocadas. É censurado e incompleto. Nessas circunstâncias, o sentido que elas atribuirão Às suas experiências é imprevisível. Eu ganhara um cachorrinho, eu sabia que estava sendo recompensada. Logo, eu não estava sendo punida. Eis o que eu aprendi: se eu fosse violada, isso seria para meu próprio bem, e se suportasse a dor, seria recompensada.
Isso foi o que eu aprendi. Eu achava que o mundo era assim, que era uma lei universal que regia crianças e adultos.

Imaginem as consequências.

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