1.
Fiquei a manhã quase inteira na cama, com
"preguiça" de sair. É verão, meu quarto estava morno, o ventilador
ligado para espantar os mosquitos. Mesmo assim, eu estava de edredom. Suada,
melecada, com a roupa grudando no corpo. Mas eu não conseguia tirar o edredom,
nem sair da cama.
Eu tenho tido essa "preguiça". Ponho entre
aspas porque não sou uma pessoa preguiçosa: pessoas preguiçosas não fazem
fichamentos e resumos de todos os livros que leem; não mantêm diários por vinte
anos; não levantam de madrugada para dar remédio ao cachorro todos os dias.
Ultimamente, porém, eu tenho tido dificuldade de sair da cama. E hoje, enquanto
estava meio dormindo, meio acordada, embolada no cobertor suando, eu percebi que
vejo nesse gesto de dormir coberta uma espécie de proteção que nunca ninguém me
deu. O aconchego do edredom tem sido o maior carinho que recebo nos últimos
tempos, um carinho que eu mesma me dou, uma proteção que eu mesma me dou. Hoje
não fiz exercícios físicos, nem atendi aos compromissos que eu tinha, porque me
permiti sofrer e cuidar do meu sofrimento.
Esse é provavelmente o texto mais importante da minha
vida. Não o mais brilhante, inovador, bonito ou teórico. Fique claro desde
já: este
não é um texto teórico, embora Às vezes pareça. Feminista
radical? Sim, este texto é. Teórico? Não. E ele também é uma resposta. Esse
texto é uma história sobre a minha vagina, e ele requer muita coragem.
2.
Tenho corrimento desde muito nova. Por quê? Porque não
gostava de vestidos. Minha mãe colocava, eu arrancava quase na mesma hora. Eu
passava meus dias de calcinha no quintal barrento, fosse na casa de minha avó,
fosse na minha. Sentada de calcinha na lama brincando com cachorro, tartaruga,
comendo goiaba do chão. Meus fundilhos eram sempre amarronzados ou avermelhados
de terra. Eu tinha corrimento sempre.
Levou um tempo para minha mãe perceber que não
adiantava colocar vestido em mim. Enquanto isso, eu tive corrimento. Quando era
bem novinha, eu tomava banhos de imersão numa tina de alumínio. Era uma água
roxa, sem cheiro. Para que eu ficasse sentada o tempo necessário, minha mãe
colocava a tina no meio da sala, em frente à TV, enquanto eu via Jaspion.
Acabado o episódio do dia, ela me levava para o chuveiro, eu tomava um novo
banho, colocava pijama, dormia. Eu não sei quantos banhos desses eu tomei.
Um dia minha vagina sangrou. O problema sobre esse dia
é que eu não me lembro dele. De sentir dor, de ver o sangue, ou de qualquer
coisa parecida. Minha mãe só pegou uma calcinha suja, havia sangue nela, me
disse isso e disse que precisávamos ir ao médico. "Vagina" era uma
palavra muito vaga para mim, e eu associava à minha "perereca" - ou
seja, vulva. Meus pais eram médicos, achei estranho que eu precisasse me
consultar com um que não fosse meu pai ou minha mãe, mas assim como papai e
mamãe eram médicos de coisas diferentes, havia um médico especialista em
pererecas que precisava ver minha perereca.
Minha mãe disse que eu me comportasse. Ela disse
"fique quieta". Aquela ordem me deixou nervosa. Eu lembro que estava
segurando algum bichinho de pelúcia e apertei ainda mais.
Na sala estava frio. Odeio frio. Eu estava de vestido
e odiava vestidos. Eu subi em uma escadinha de metal e uma enfermeira, ou seja
lá o que for, tirou minha calcinha. Me pegou no colo e me deitou em uma cama de
metal gelado. Mandou eu dobrar as pernas. Um homem apareceu. Esse homem era um
ginecologista. O homem colocou luvas, eu continuava apertando meu bichinho de
pelúcia. O homem colocou a mão em um lugar que eu nem sabia que existia, mas
existia e estava doendo muito. Ele era um homem grande com mãos grandes e eu
era uma menina de uns 6 ou 7 anos deitada em uma cama gelada. Ele tirou a
mão e eu fiquei feliz, mas não tinha acabado. Ele me abriu com um instrumento
qualquer - não vi - e colocou um outro instrumento qualquer lá dentro do lugar
que eu ainda não sabia o que era. E "colheu amostras". Passou num
pedacinho de vidro, eu ainda estava aberta com alguma coisa dentro do lugar que
eu não sabia que eu tinha. Ele fez tudo isso sorrindo, talvez para me
tranquilizar. Então ele tirou a coisa de dentro de mim, a enfermeira colocou
minha calcinha, e eu fiquei segurando meu bichinho de pelúcia.
Minha mãe entrou na sala. Ou já estava lá. Como
médica, ela pediu para o médico, o ginecologista, contar qual era o problema da
filha dela. Ele deu uma explicação da qual ainda me lembro: as células dela são
grandes demais para os vasos sanguíneos, e estão saindo. Então, ele falou que
era necessário passar uma pomada "lá", com a ajuda de uma seringa de
plástico, sem agulha, durante alguns dias, todos os dias. Eu lembro de ficar
aterrorizada porque iam colocar coisas "lá" outra vez, mas minha mãe
me mandou ficar quieta.
Na volta para casa eu ganhei um cachorrinho de verdade.
Minha mãe perguntou se eu deixava colocar a seringa
"lá". Eu falei que não. O tratamento nunca foi feito, e eu cresci.
Minha mãe parou de colocar vestidos em mim, e comprou macacões. Eu adorava
macacões. Eu nunca tirava meus macacões.
A partir desse momento da vida, eu me engajei em
diversos comportamentos autodestrutivos. Na época, eu tirava melecas. Mas não
que nem as crianças normais. Eu arranhava as paredes internas das minhas
narinas até elas sangrarem muito. Depois, passava o sangue na camisa. Eu
gostava de ver o sangue na camisa. Depois da mania da meleca, eu comia até
passar mal. Eu lembro de comer, comer, comer até sentir uma coisa queimando no
estômago e regurgitar ácido. Depois, vieram os regimes de fome. No dia em que
fui internada (pela manhã, tomei soro, fiz exames) eu estava pesando menos de
40kg. Por fim, a automutilação propriamente dita, com giletes que eu espalhava
por todas as gavetas da casa. E por último, sexo com penetração vaginal,
concomitante ao uso abusivo de álcool. Meus namorados me adoravam porque minha
vagina era "apertadinha", mas a verdade é, apenas, que eu não tinha
nenhuma lubrificação, nunca, a não ser o sangue daquela violência repetida.
minha ginecologista da vida adulta, uma mulher, tampouco teve a sensibilidade (ou
o preparo) para compreender a situação: a descamação excessiva e constante da
minha vagina foi atribuída ao látex da camisinha e tratada como alergia. Minha
alergia nunca passou.
3.
Eu tenho dificuldades de contar isso tudo, e até hoje
só contei a duas pessoas. Minha dificuldade é, em primeiro lugar, lidar com
essa lembrança. Em segundo lugar, o fato de que, desde pequena, eu me considero
errada por me sentir violada e agredida. O que eu queria que minha mãe fizesse?
Ir ao médico é normal, é necessário. Você está sendo cristã e valorizando a
virgindade, que reacionária! Desde muito cedo eu lido com o fato de que, sob
nenhum ponto de vista, em nenhum lugar e por nenhuma pessoa, eu fui considerada
estuprada. E no entanto, eu não consigo me sentir de outra forma. Por um lado
eu penso: eu era uma criança, não sabia o significado de "vagina",
"corrimento", "ginecologista", não tinha condições para
consentir ou não. Esse é o ponto. Eu nem consenti, nem não-consenti. Não foi
contra nem a favor da minha vontade porque eu não tinha vontade própria.
Consentimento e vontade própria são duas ideias completamente inadequadas e
inúteis para discutir a minha situação.
Para consentir, é preciso conhecer as condições
implicadas na sua decisão. Como eu não tinha conhecimento, não era possível
produzir um juízo de valor, tampouco impor minha vontade. Não era possível
autonomia. "Teoricamente", estupro é quando você não consente. E todavia, eu também não me opus, nem tinha como me
opor, àquilo que estavam fazendo no meu corpo. E agora? O que eu tenho que
fazer para conciliar essa confusão que tem sido a minha cabeça e a minha
sexualidade desde a infância?
Conhecer o feminismo me permitiu colocar novas
perguntas, mais úteis. De que maneira, e com quais interesses, é possível criar
um sujeito que não está plenamente ciente de todas as partes de seu corpo? Qual
moral permite que esse sujeito tenha seu corpo manuseado, lhe causando dor, sem
que isso seja visto como uma atrocidade? O mesmo sistema de valores me ensinou
que a minha vagina devia ser veículo de prazer para mim e a pessoa que eu
escolhesse, mas permitiu que nessa e em diversas outras situações, ela fosse
tocada sem o meu desejo. Meu desejo ou a falta dele simplesmente não eram
mediadores entre alguma outra pessoa e o meu corpo. Como isso aconteceu? Eu
afinal fui ou não estuprada, e em quais bases essa palavra está sendo definida?
Existem também as outras penetrações que eu pratiquei.
Eu consenti. Eu disse sim a quase
todas elas. Hoje eu percebo um padrão de autodestruição no qual elas se
encaixam perfeitamente, numa lógica de automutilação que está presente na minha
vida desde o "incidente" com o ginecologista. Essas, com certeza, não
foram estupro: sob nenhum ponto de vista, em nenhum lugar, ninguém vai ver meus
relacionamentos heterossexuais como estupro.
4.
Este texto responde a uma
polêmica que hoje polariza o feminismo radical. Está-se questionando se toda
interação sexual homem/mulher, envolvendo a penetração do pênis na vagina,
deveria ser considerada um estupro. Historicamente, o movimento feminista
questiona a compreensão de "abuso sexual", uma vez que, em termos de
lei, cultura e arte, este tem sido definido nos termos dos homens, isto é, nos
termos da violação de uma propriedade que não pertence à mulher. O termo está
sendo tensionado, disputado, por diversas correntes feministas mas, no geral,
as abordagens me parecem incompletas ao se fixar apenas na alteração do
significado de uma palavra. Essa disputa é, claro, necessária. Mas, em alguma
medida, ela pressupõe que o acesso masculino a nossos corpos está no âmbito da ignorância:
homens violam porque desconhecem nosso sofrimento, e não porque o estupro, ou
mesmo a penetração "consentida", sejam partes políticas, econômicas,
estruturantes disto que chamamos de patriarcado. Com este texto eu proponho,
então, que a questão "PIV=RAPE" só será devidamente respondida através
de uma análise profunda, tanto do estupro quando da penetração
"consentida", averiguando qual é a função política, econômica e
social da penetração para a dominação das mulheres.
Um dos elementos que me
parece ausente nas discussões que tenho até aqui acompanhado é que, como uma
resposta à tentativa das mulheres nomearem, designarem, diagnosticarem a
violência masculina, o patriarcado se apropriou, relativizou, ampliou e
distorceu a noção que temos hoje de "desejo". Esse é um evento
recente do patriarcado, e por isso é compreensível que as feministas tenham
dificuldade de estudá-lo, entendê-lo e combatê-lo. essa redefinição de
"desejo" é um backlash, é
uma resposta direta ao empreendimento feminista de questionar a
heterossexualidade compulsória e o lugar do coito na organização da sociedade,
feitos por Shere Hite, Monique Wittig, Mary Daly, e muitas outras. Sheila
Jeffreys identifica a apropriação patriarcal da palavra "desejo" em
seu artigo "Como as políticas do orgasmo sequestraram o movimento
feminista".
Ainda referente à
corrente feminista de que faço parte, o feminismo radical, muitas mulheres têm
argumentado que escrever sobre penetração de maneira categórica, teórica, é uma
afronta ao sofrimento das mulheres. As mulheres que fazem essa crítica estão se
sentindo afrontadas em sua condição de sobreviventes, e eu sinto muito. Por outro lado, eu também sou uma sobrevivente. Eu
sobrevivi a múltiplos abusos, incluindo o manuseio invasivo do meu corpo em uma
idade quando eu não tinha condições de dizer que sim ou não. Eu, sobrevivente,
preciso de uma linguagem que sistematize o significado da penetração em um
mundo onde a penetração acontece de maneira sistemática. Para isto, sigo o
preceito de que a teoria radical é aquela que surge colada à, derivada da
experiência concreta e material do corpo feminino no mundo patriarcal. Esta é a
corrente que busquei acreditando que, através dela, posso afastar a poluição sonora
patriarcal que circunda as dores que meu corpo está gritando. É preciso deixar
claro que, no mundo em que nós vivemos, com os discursos que estão disponíveis,
é impossível sistematizar, verbalizar e acolher minha história como um abuso
sexual. No entanto, essa experiência me traumatizou, me deformou, me privou de
qualquer possibilidade de uma sexualidade saudável, plena, em harmonia com meu eu e com os demais aspectos da minha
vida. Essa experiência que eu tive na
infância me definiu e eu preciso de uma teoria, ou ao menos de um texto, que a
defina para mim da maneira como eu sinto que ela ocorreu: como um estupro.
Muito obrigada, esse texto foi fundamental pra mim!
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