quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pênis na vagina é estupro - uma história de vida

1.
Fiquei a manhã quase inteira na cama, com "preguiça" de sair. É verão, meu quarto estava morno, o ventilador ligado para espantar os mosquitos. Mesmo assim, eu estava de edredom. Suada, melecada, com a roupa grudando no corpo. Mas eu não conseguia tirar o edredom, nem sair da cama.
Eu tenho tido essa "preguiça". Ponho entre aspas porque não sou uma pessoa preguiçosa: pessoas preguiçosas não fazem fichamentos e resumos de todos os livros que leem; não mantêm diários por vinte anos; não levantam de madrugada para dar remédio ao cachorro todos os dias. Ultimamente, porém, eu tenho tido dificuldade de sair da cama. E hoje, enquanto estava meio dormindo, meio acordada, embolada no cobertor suando, eu percebi que vejo nesse gesto de dormir coberta uma espécie de proteção que nunca ninguém me deu. O aconchego do edredom tem sido o maior carinho que recebo nos últimos tempos, um carinho que eu mesma me dou, uma proteção que eu mesma me dou. Hoje não fiz exercícios físicos, nem atendi aos compromissos que eu tinha, porque me permiti sofrer e cuidar do meu sofrimento.
Esse é provavelmente o texto mais importante da minha vida. Não o mais brilhante, inovador, bonito ou teórico. Fique claro desde já: este não é um texto teórico, embora Às vezes pareça. Feminista radical? Sim, este texto é. Teórico? Não. E ele também é uma resposta. Esse texto é uma história sobre a minha vagina, e ele requer muita coragem.

2.
Tenho corrimento desde muito nova. Por quê? Porque não gostava de vestidos. Minha mãe colocava, eu arrancava quase na mesma hora. Eu passava meus dias de calcinha no quintal barrento, fosse na casa de minha avó, fosse na minha. Sentada de calcinha na lama brincando com cachorro, tartaruga, comendo goiaba do chão. Meus fundilhos eram sempre amarronzados ou avermelhados de terra. Eu tinha corrimento sempre.
Levou um tempo para minha mãe perceber que não adiantava colocar vestido em mim. Enquanto isso, eu tive corrimento. Quando era bem novinha, eu tomava banhos de imersão numa tina de alumínio. Era uma água roxa, sem cheiro. Para que eu ficasse sentada o tempo necessário, minha mãe colocava a tina no meio da sala, em frente à TV, enquanto eu via Jaspion. Acabado o episódio do dia, ela me levava para o chuveiro, eu tomava um novo banho, colocava pijama, dormia. Eu não sei quantos banhos desses eu tomei.
Um dia minha vagina sangrou. O problema sobre esse dia é que eu não me lembro dele. De sentir dor, de ver o sangue, ou de qualquer coisa parecida. Minha mãe só pegou uma calcinha suja, havia sangue nela, me disse isso e disse que precisávamos ir ao médico. "Vagina" era uma palavra muito vaga para mim, e eu associava à minha "perereca" - ou seja, vulva. Meus pais eram médicos, achei estranho que eu precisasse me consultar com um que não fosse meu pai ou minha mãe, mas assim como papai e mamãe eram médicos de coisas diferentes, havia um médico especialista em pererecas que precisava ver minha perereca.
Minha mãe disse que eu me comportasse. Ela disse "fique quieta". Aquela ordem me deixou nervosa. Eu lembro que estava segurando algum bichinho de pelúcia e apertei ainda mais.
Na sala estava frio. Odeio frio. Eu estava de vestido e odiava vestidos. Eu subi em uma escadinha de metal e uma enfermeira, ou seja lá o que for, tirou minha calcinha. Me pegou no colo e me deitou em uma cama de metal gelado. Mandou eu dobrar as pernas. Um homem apareceu. Esse homem era um ginecologista. O homem colocou luvas, eu continuava apertando meu bichinho de pelúcia. O homem colocou a mão em um lugar que eu nem sabia que existia, mas existia e estava doendo muito. Ele era um homem grande com mãos grandes e eu era uma menina de uns 6 ou 7 anos deitada em uma cama gelada. Ele tirou a mão e eu fiquei feliz, mas não tinha acabado. Ele me abriu com um instrumento qualquer - não vi - e colocou um outro instrumento qualquer lá dentro do lugar que eu ainda não sabia o que era. E "colheu amostras". Passou num pedacinho de vidro, eu ainda estava aberta com alguma coisa dentro do lugar que eu não sabia que eu tinha. Ele fez tudo isso sorrindo, talvez para me tranquilizar. Então ele tirou a coisa de dentro de mim, a enfermeira colocou minha calcinha, e eu fiquei segurando meu bichinho de pelúcia.
Minha mãe entrou na sala. Ou já estava lá. Como médica, ela pediu para o médico, o ginecologista, contar qual era o problema da filha dela. Ele deu uma explicação da qual ainda me lembro: as células dela são grandes demais para os vasos sanguíneos, e estão saindo. Então, ele falou que era necessário passar uma pomada "lá", com a ajuda de uma seringa de plástico, sem agulha, durante alguns dias, todos os dias. Eu lembro de ficar aterrorizada porque iam colocar coisas "lá" outra vez, mas minha mãe me mandou ficar quieta.
Na volta para casa eu ganhei um cachorrinho de verdade.
Minha mãe perguntou se eu deixava colocar a seringa "lá". Eu falei que não. O tratamento nunca foi feito, e eu cresci. Minha mãe parou de colocar vestidos em mim, e comprou macacões. Eu adorava macacões. Eu nunca tirava meus macacões.
A partir desse momento da vida, eu me engajei em diversos comportamentos autodestrutivos. Na época, eu tirava melecas. Mas não que nem as crianças normais. Eu arranhava as paredes internas das minhas narinas até elas sangrarem muito. Depois, passava o sangue na camisa. Eu gostava de ver o sangue na camisa. Depois da mania da meleca, eu comia até passar mal. Eu lembro de comer, comer, comer até sentir uma coisa queimando no estômago e regurgitar ácido. Depois, vieram os regimes de fome. No dia em que fui internada (pela manhã, tomei soro, fiz exames) eu estava pesando menos de 40kg. Por fim, a automutilação propriamente dita, com giletes que eu espalhava por todas as gavetas da casa. E por último, sexo com penetração vaginal, concomitante ao uso abusivo de álcool. Meus namorados me adoravam porque minha vagina era "apertadinha", mas a verdade é, apenas, que eu não tinha nenhuma lubrificação, nunca, a não ser o sangue daquela violência repetida. minha ginecologista da vida adulta, uma mulher, tampouco teve a sensibilidade (ou o preparo) para compreender a situação: a descamação excessiva e constante da minha vagina foi atribuída ao látex da camisinha e tratada como alergia. Minha alergia nunca passou.

3.
Eu tenho dificuldades de contar isso tudo, e até hoje só contei a duas pessoas. Minha dificuldade é, em primeiro lugar, lidar com essa lembrança. Em segundo lugar, o fato de que, desde pequena, eu me considero errada por me sentir violada e agredida. O que eu queria que minha mãe fizesse? Ir ao médico é normal, é necessário. Você está sendo cristã e valorizando a virgindade, que reacionária! Desde muito cedo eu lido com o fato de que, sob nenhum ponto de vista, em nenhum lugar e por nenhuma pessoa, eu fui considerada estuprada. E no entanto, eu não consigo me sentir de outra forma. Por um lado eu penso: eu era uma criança, não sabia o significado de "vagina", "corrimento", "ginecologista", não tinha condições para consentir ou não. Esse é o ponto. Eu nem consenti, nem não-consenti. Não foi contra nem a favor da minha vontade porque eu não tinha vontade própria. Consentimento e vontade própria são duas ideias completamente inadequadas e inúteis para discutir a minha situação.
Para consentir, é preciso conhecer as condições implicadas na sua decisão. Como eu não tinha conhecimento, não era possível produzir um juízo de valor, tampouco impor minha vontade. Não era possível autonomia. "Teoricamente", estupro é quando você não consente. E todavia, eu também não me opus, nem tinha como me opor, àquilo que estavam fazendo no meu corpo. E agora? O que eu tenho que fazer para conciliar essa confusão que tem sido a minha cabeça e a minha sexualidade desde a infância?
Conhecer o feminismo me permitiu colocar novas perguntas, mais úteis. De que maneira, e com quais interesses, é possível criar um sujeito que não está plenamente ciente de todas as partes de seu corpo? Qual moral permite que esse sujeito tenha seu corpo manuseado, lhe causando dor, sem que isso seja visto como uma atrocidade? O mesmo sistema de valores me ensinou que a minha vagina devia ser veículo de prazer para mim e a pessoa que eu escolhesse, mas permitiu que nessa e em diversas outras situações, ela fosse tocada sem o meu desejo. Meu desejo ou a falta dele simplesmente não eram mediadores entre alguma outra pessoa e o meu corpo. Como isso aconteceu? Eu afinal fui ou não estuprada, e em quais bases essa palavra está sendo definida?
Existem também as outras penetrações que eu pratiquei. Eu consenti. Eu disse sim a quase todas elas. Hoje eu percebo um padrão de autodestruição no qual elas se encaixam perfeitamente, numa lógica de automutilação que está presente na minha vida desde o "incidente" com o ginecologista. Essas, com certeza, não foram estupro: sob nenhum ponto de vista, em nenhum lugar, ninguém vai ver meus relacionamentos heterossexuais como estupro.

4.
Este texto responde a uma polêmica que hoje polariza o feminismo radical. Está-se questionando se toda interação sexual homem/mulher, envolvendo a penetração do pênis na vagina, deveria ser considerada um estupro. Historicamente, o movimento feminista questiona a compreensão de "abuso sexual", uma vez que, em termos de lei, cultura e arte, este tem sido definido nos termos dos homens, isto é, nos termos da violação de uma propriedade que não pertence à mulher. O termo está sendo tensionado, disputado, por diversas correntes feministas mas, no geral, as abordagens me parecem incompletas ao se fixar apenas na alteração do significado de uma palavra. Essa disputa é, claro, necessária. Mas, em alguma medida, ela pressupõe que o acesso masculino a nossos corpos está no âmbito da ignorância: homens violam porque desconhecem nosso sofrimento, e não porque o estupro, ou mesmo a penetração "consentida", sejam partes políticas, econômicas, estruturantes disto que chamamos de patriarcado. Com este texto eu proponho, então, que a questão "PIV=RAPE" só será devidamente respondida através de uma análise profunda, tanto do estupro quando da penetração "consentida", averiguando qual é a função política, econômica e social da penetração para a dominação das mulheres.
Um dos elementos que me parece ausente nas discussões que tenho até aqui acompanhado é que, como uma resposta à tentativa das mulheres nomearem, designarem, diagnosticarem a violência masculina, o patriarcado se apropriou, relativizou, ampliou e distorceu a noção que temos hoje de "desejo". Esse é um evento recente do patriarcado, e por isso é compreensível que as feministas tenham dificuldade de estudá-lo, entendê-lo e combatê-lo. essa redefinição de "desejo" é um backlash, é uma resposta direta ao empreendimento feminista de questionar a heterossexualidade compulsória e o lugar do coito na organização da sociedade, feitos por Shere Hite, Monique Wittig, Mary Daly, e muitas outras. Sheila Jeffreys identifica a apropriação patriarcal da palavra "desejo" em seu artigo "Como as políticas do orgasmo sequestraram o movimento feminista".

Ainda referente à corrente feminista de que faço parte, o feminismo radical, muitas mulheres têm argumentado que escrever sobre penetração de maneira categórica, teórica, é uma afronta ao sofrimento das mulheres. As mulheres que fazem essa crítica estão se sentindo afrontadas em sua condição de sobreviventes, e eu sinto muito. Por outro lado, eu também sou uma sobrevivente. Eu sobrevivi a múltiplos abusos, incluindo o manuseio invasivo do meu corpo em uma idade quando eu não tinha condições de dizer que sim ou não. Eu, sobrevivente, preciso de uma linguagem que sistematize o significado da penetração em um mundo onde a penetração acontece de maneira sistemática. Para isto, sigo o preceito de que a teoria radical é aquela que surge colada à, derivada da experiência concreta e material do corpo feminino no mundo patriarcal. Esta é a corrente que busquei acreditando que, através dela, posso afastar a poluição sonora patriarcal que circunda as dores que meu corpo está gritando. É preciso deixar claro que, no mundo em que nós vivemos, com os discursos que estão disponíveis, é impossível sistematizar, verbalizar e acolher minha história como um abuso sexual. No entanto, essa experiência me traumatizou, me deformou, me privou de qualquer possibilidade de uma sexualidade saudável, plena, em harmonia com meu eu e com os demais aspectos da minha vida. Essa experiência que eu tive na infância me definiu e eu preciso de uma teoria, ou ao menos de um texto, que a defina para mim da maneira como eu sinto que ela ocorreu: como um estupro.

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